O Blog

No começo eu só queria contar detalhes da minha vida em Toulouse para minha família e amigos curiosos. De repente comecei a ter necessidade de escrever, foi nascendo um diário de crônicas, foram surgindo seguidores, leitores, a vida foi tomando outro curso. Após 1 ano e quatro meses na França, idas e vindas para o Brasil estou diante de mais um ponto de bifurcação, voltando às minhas origens para dar continuação ao blog e a vida. Você está convidado a participar desses próximos capítulos e a se perder e se encontrar nessas novas estradas estrábicas.

sábado, 16 de julho de 2011

Muito prazer, eu sou a filha do Chicão!

 Você me deixou. Justo você, meu primeiro amor, meu grande amor. Acho que desde que nasci me derreti por você, pelo seu jeito de me olhar, de sorrir pra mim, de segurar a minha mão, de me pegar no colo. Me apaixonei pela sua voz, pelo seu cabelo, pelo seu tamanho. Pelo seu cheiro, pelo amor que você esbanja, pelos carinhos que cearenses que você me faz. Você é lindo. Eu gosto de tudo em você. Gosto quando me sequestra para a praia, para o jogo de futebol. Gosto do teu time e das canções proibidas que você me ensina. Gosto dos teus amigos e de te assistir a jogar. Gosto de ir com você à faculdade e ver o sucesso que você faz. Até de saber que você colou na prova e que aquela morena te paquerou...Como gosto de guardar os teus segredos. Adoro quando você me leva para o trabalho e me ensina o que sabe fazer.

Gosto quando você me assiste a nadar e jogar bola.

Gosto de engraxar teus sapatos e de lavar teu carro. Gosto de pegar jacaré com você, de nadar até o fundo segurando nas tuas costas. Gosto de te deixar orgulhoso, de ir pra academia com você. Gosto de andar na tua garupa, de abraçar o meu gordinho e de dirigir a tua moto.  Gosto de lutar com todos os meninos, de fazer aquela chave que você me ensinou e a passar a guarda do teu jeito. Gosto de te ter comigo em todas as competições, de te ver gritando à beira do tatame, de ganhar a luta e correr pra te abraçar. Gosto quando você me entrega as medalhas e me consola nas derrotas. Gosto do teu entusiasmo, alegria, bondade e da tua fé. Gosto de te ligar a qualquer hora, de puxar a tua orelha, de te colocar na linha. Gosto de ter você nas minhas formaturas, no mestrado, na monografia. Gosto de deitar no teu peito e apertar tua barriga, de te entregar o primeiro pedaço de bolo, e com você me parecer.  Gosto de mostrar a todos o meu pai e dizer como me orgulho de você. Gosto de te amar assim e isso sempre vai me fortalecer. Aquilo que não gosto, te perdoo de coração, porque para sempre eu serei a filha do CHICÃO.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A rapoza e o príncipe

Os 35 graus quase cotidianos de Toulouse no verão vem despertando em mim cada vez mais satisfação em estar aqui, tanto pelo numero de pessoas na rua, (no inverno a cidade parecia tão desabitada) quanto pela dúvida de continuar que ainda paira diante das incertezas familiares. Andar de bicicleta tem mais sabor, o vento que bate parece mais fresco, o sol se poe mais colorido, os dados do doutorado se enriquecem, o francês já sai com mais facilidade, a comida é insuportavelmente boa, o olhar no espelho é melhor refletido, o treino de jiu jitsu é mais prazeroso, os amigos já são amigos...



Tudo isso me faz lembrar uma passagem do meu livro de cabeceira "Le petit prince" já lido e relido agora em versão original (ainda com ajuda do google de vez em quando). Existe uma conversa entre a rapoza e o pequeno príncipe sobre o significado do verbo "apprivoiser"...Em português traduzido como "cativar" e eis a frase famosa, muitas vezes banalizada "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Em francês, esse verbo inicialmente tem o sentido de domar, domesticar, amansar ou ainda se familiarizar progressivamente ou reduzir as reticências de alguém. Antes de chegar ao clichê a rapoza tenta explicar ao princípe como se "apprivoise" alguém...Primeiro sendo paciente para a cada dia se sentar mais perto da pessoa, trocando só alguns olhares, depois algumas palavras, até que quando menos se espera você já o "apprivoisé". O curioso é o príncipe não entender o porquê de se fazer isso quando se sabe que o outro vai partir; e a rapoza esclarece que mesmo após a partida daquele que foi "apprivoisé" (entenda-se cativado) a possibilidade de poder se lembrar com ternura daquilo que se viveu ao lado do outro já faz valer a pena cativar e ser cativado. E pra mim essa é a delicadeza mais verdadeira do processo de se apegar a alguém.

Por isso meus maiores presentes são sempre as pessoas que conheço, não importa em qual lugar do mundo, qual sua religião, alimentação, mania, defeito ou qualidade. Poder guardar poucos ou muito momentos com alguém que te cativou, te torna responsável por estas lembranças...Então acho que posso dizer que pouco à pouco eu fui "apprivoisé" pela França e tudo de bom que há nela e essas lembranças agora já são parte da minha história e sempre, eternamente, valerão  a pena.

sábado, 11 de junho de 2011

O jardim dos porquês


Acho que todo mundo tem na vida aquela pessoa sem a qual não imaginamos a nossa existência. Talvez algumas pessoas tenham mais do que uma. Não me refiro à namorados, maridos ou companheiros. Na minha vida essa pessoa é meu pai, meu salvador, meu irmão, meu parceiro de todas as horas.
Já vivi muitos momentos que pareciam ser os mais tristes da minha vida e que isso não soe como uma reclamação ou um melodrama. Entretanto, acho que nunca tive muito tempo para perguntar os “porquês” . Porque tenho uma irmã deficiente? Porque minha mãe não tem jeito de mãe? Porque ela abandonou as filhas? Porque a minha irmã não entende isso? Porque eu tenho que ser mãe delas? Porque eu tive que internar minha mãe a força? Porque minha irmã entrou em coma quando eu estava sozinha com ela? Porque, porque, porque? E que se danem os porquês... Juro que nunca fiz tantas perguntas como agora. Mas nem quero saber as respostas... Descobri que tenho em mim um solo fértil de onde brotam flores coloridas e arvores fortes cheias de entusiasmo, energia, sorrisos...Isso também não sei porque, mas talvez responda porque já consegui tantas coisas maravilhosas até hoje.
Ontem, dia do aniversário do meu pai, eu tive uma notícia e aí sim, eu questionei o “porquê” e me senti no momento mais triste da minha vida. Aquele cara, que apesar dos tropeços, protegeu o solo Mariana do vento, do sol, dos monstros, regou aquelas plantinhas, as ensinou fechar os olhos quando tudo estivesse de pernas pro ar...Aquele cara que semeou muitos outros sentimentos, adubou o terreno “filhas” com alegria, de coração aberto....Aquele cara, aquela pessoa responsável por quem eu sou hoje, está agora no hospital, com leucemia, sendo espetado por mil agulhas, enfermeiras e médicos... Poderia colocar aqui tudo que estou sentindo agora e talvez por isso tenha começado a escrever, mas sinceramente ainda não sei o que colocar.
Porque? Deve haver um possivelmente, talvez eu nunca descubra, não faz mal. Por enquanto vou regando meu jardim com minhas lágrimas, esperando o sol nascer de novo trazendo novas perguntas. De qualquer forma: Eis o mistério da fé!